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Pezinho de feijão

26 de junho de 2014  por Natasha Siviero  , , , , ,   nenhum comentário


Miguel contou que plantou um grãozinho de feijão no algodão. A tia ensinou. Durante a semana acompanhei os relatos de cada evolução do feijãozinho: o broto, o caule, a primeira folhinha.

Na sexta-feira cheguei dez minutos atrasada para buscar meu filho na escola, e ele estava no pátio. Quando me viu, levantou com cuidado as duas mãos e exibiu orgulhoso seu feijãozinho. Merda, eu pensei, vai morrer. Dito e feito. Duas semanas depois o feijão morreu, durou até muito.

Miguel aprendeu que o feijãozinho deve pegar um tiquinho de sol, mas não muito vento, e que precisa beber água. Botei o feijão no tanque e deixei sair umas gotinhas, mas meu filho me repreendeu: essa água não é de beber.Pegou ele mesmo o copo do homem aranha, foi até o filtro e preferiu água morna. Tentei falar qualquer coisa, mas ele já estava derramando um copo d’água inteiro no feijão.

Por sorte, a plantinha de Miguel sobreviveu ao afogamento inicial e eu tive tempo de ensiná-lo a colocar um pouquinho de água todos os dias. Então o feijãozinho deu raízes pequenininhas no algodão, deu dois pares de folhinhas mimosas, ficou uma graça de feijãozinho.

Miguel disse que ele ia chegar até o céu.

Ontem, porém, o feijão acordou meio capenga, caído. Ia morrer, mais dia menos dia. Coloquei a culpa nas professoras. Saco, fazer experiência é mole, duro é mandar o feijão para morrer em casa.

Reclamei com Rafael, que não me deu razão. Ele disse que a morte do feijão é parte da experiência. Essa era, aliás, uma boa oportunidade para conversarmos com Miguel sobre o ciclo natural das coisas.

Quando meu avô morreu, eu não sabia o que dizer a Miguel, então não falei nada. Eu e Rafael conversamos que tentaríamos tratar com naturalidade, sem histórias fantasiosas. Mas foi tudo muito difícil para mim, para todo mundo, e adiamos o papo. Pela prima da mesma idade, meu filho ficou sabendo que o bisavô virara uma estrelinha no céu, tinha aprendido a voar. Não era a história que eu contaria, mas na falta de uma, melhor essa.

Agora, com o feijão, e sem a tristeza que eu tinha em mim, era uma oportunidade para falar da vida e da morte sem tabu, foi o que me disse Rafael. Mas hoje, quando o feijão morreu, foi até a mim que Miguel veio.

Acordei com moleque chorando. Meu feijão morreu, mamãe, morreu! Quando um feijão dorme todos os dias é porque ele morreu.

Meu filho, senta aqui. Sentei-me também. Falei do broto, das folhas, da natureza, da vida e, antes que eu concluísse o discurso do ciclo que não tive tempo de treinar, meu filho se agarrou a barra da minha saia e disse:

– Mamãe, eu não dei água para ele ontem.

Então eu expliquei que de uma maneira ou de outra maneira o feijão morreria, com água ou sem água, mas ele na barra da minha saia:

-Mamãe, eu não dei água para ele.

Então eu disse que eu mesma havia dado a água, que não era isso, era a própria vida. O feijão nasce, cresce, dá folhas mimosas e morre.

Miguel na barra da minha saia, a boca tremendo

– Mamãe, eu não tratei dele. Não dei água a ele.

Eu sentada, o feijão no colo, Miguel na barra da minha saia. Uma covardia. Vai, Natasha, mas não pude.

Olhe meu filho, veja! – falei com falso espanto – seu feijão não morreu!

– Não?!

-Não. Ele só está dodói. Mamãe leva ele no tio Pedro, depois ele vai sarar. A gente coloca num pote maior e ele vai crescer e chegar ao céu.

De repente do pranto fez o riso e da minha covardia fez-se a esperança.

Ele enxugou o olhinho, deu um sorriso, deu-me um abraço, foi brincar de carrinho. E adiou-se indeterminadamente a conversa do ciclo da vida.

 

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Namorinho de portão
Fluvial

Natasha é tão natasha que só ela é desse jeito. Podia ter um verbo natashar que seria meio teimosia, meio maluquice, meio explosão e uma quantidade maluca de ideia. Uma por semana, depois uma por dia, depois outra. Na sequência são junções da anterior com a próxima e um tiquinho assim de sanfona. Natasha abre e fecha feito sanfona e faz um som bonito.

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