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Amor é palco

11 de maio de 2017  por Marcela Rangel  , , , , , , , , , , ,   1 comentário


Ato 1

Fim

Agi por impulso, ariana de mim, dizendo que queria botar os olhos em você mais uma vez. Você, num mal me quer, não veio. Embora exista substância e sonho permeado de concreto – não pela dureza, mas pela edificação – a gente nuvem.  Nos guardamos num espaço de grande armazenamento virtual. Nosso amor é cegueira. Tateia no escuro, no vão de duas cidades, na corda atarefada da rotina, no engano das semelhanças, das coisas em comum, das coisas comuns.

Mesmo que existam mundos inteiros só nossos, você foi embora. Eu saí antes. Perdão pelo primeiro passo, você tem todo direito do último. Não suportei o mergulho no raso. Depois do primeiro, eu nunca mais soube mergulhar direito. Estou me banhando, seca, de areia: suja, bruta, áspera, cheia de cheiro e mistura. Amor único, sem curva, não me satisfaz mais. Eu quero todo mundo nesse carnaval.

 

 

Ato 2

Prólogo

Marretada no peito, alavancada nas pernas, mafuá nos cabelos, tremedeira na parte interna das coxas, roxos nos braços, marcas nas costas, arranhões em toda pequena parte. Invasão da propriedade privada que sou eu. Você sem terra apossador de muitos alqueires; magnetismo que atrai o mundo inteiro. As pessoas voam atordoadas em sua volta, sem entender o tamanho do que as atingiu. Percebi. Depois vi. Quis como brincadeira. Desci, cheguei perto, senti o cheiro, avancei, pousei.

E-n-c-o-s-t-e-i.

Nunca encostei tão gostoso em alguém. Peles conversando, esfregando, arrastando espaço e tempo, tentando entrar uma na outra, fundir e parar numa posição só, confortável, pra não desmanchar nunca mais. Água, comida: supérfluo. Qualquer movimento que não fosse o toque parecia errado. Desidratamos, mas garganta jorrando. Suor e banho e um olho líquido que quer saber.

Ato 2.1

Me amou feito menino num estupor de início, me amou feito homem numa tarde-expediente, me amou feito bicho da última vez. Me fudeu inteirinha. As pintas espalhadas em mim pareciam pequenos mapas, pontos a serem ligados para a descoberta. Virei um continente nunca antes habitado. Meus peitos – pequenos, sensíveis – ninguém nunca os beijou. Meu sexo – inchado, rijo, vermelho de força, de vontade – ninguém nunca o mordeu. Meu rosto – com a boca entreaberta, os dentes à mostra, a mandíbula contraída em tesão – ninguém nunca o tocou com a ponta dos dedos, deslizando com prazer de corpo. O rosto era um órgão sexual. O rosto é um órgão sexual, afinal. Intocada eu era, descobri. Nada mais-valia.

Ato 2.2

Me inspecionou, pediu para eu virar para um lado, para o outro, dar meia volta. Me viu inteira, reparou cada pinta, cada sinal, beijou cada uma, cada um. Me engoliu, me brincou, me falou putaria no ouvido com a sinceridade comovente que só a originalidade tem. Nada comove mais do que a sinceridade da palavra-sexo. A verdade é rara. Fomos com ela pra dentro do palco que nos cabe: dois espetáculos com prazer de velocidade no asfalto, com gozo de lentidão no olhar, no lençol. Eu caça-aplauso; você homem-show.

Ato 2.3

Quis ficar. Eu nunca quero ficar. Quis ficar! Que tragédia grega que seríamos nós. Desconfie de tanta educação, por favor. Desconfio. A gente tem pólvora pra quebrar uma casa inteira. A gente tem força pra incendiar o morro, que passaria a ter vez. Será a nossa? The show must go on. A gente mistério.

 

 

 

 

Ato 3

Haikai

Me conheceu nua, sem surpresa, sem curiosidade de corpo. Me quis. Eu coração doído, carregando angústia pela festa. Bebendo, fumando, engolindo qualquer coisa, me gastando até o sol nascer. Hoje, se eu não me gastar, explodo. Se eu não me queimar até a última ponta me estrepo, me entranho, fico em brasa. Resolvi ser menos e cedi beijo. Tudo ia leve quando você cresceu numa proporção geométrica de sorriso. Não conseguia me ouvir; me arrancava da sobriedade do olho no olho a todo momento. Fomos festa, fomos dança, fomos outra dimensão por meia hora. Amor veloz, amor carne, amor desejo, amor no escuro. Esvaziei. Quanta vida existe num sábado a noite?

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Eu não sei receber elogio
Infância

Samba às quintas. Aquariana, de grandes paixões, pequenos romances, rompantes médios, gigantescas liberdades, imensuráveis controvérsias, avessa às convenções, inconstante. Também sabe ser fria, calma, regrada, aliada a convenções, mas quando assim não samba, não sai poesia. Menina sem infância, mulher que não se sabe, mas tenta, filha única, de muitos amigos. Carrega em si o drama do teatro, a atuação dos livros e filmes. Jornalista das palavras de jornal, que ama a TV e o rádio e quer andar pelo mundo. A música é tão importante quanto a poesia e as linguagens todas. Mais Chico, Sampaio e fé nessa vida.

1 Comentário

  1. Rafael disse:

    Curti demais, parabéns!!

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